A pandemia como pretexto para o aprofundamento do descontrolo fiscal e monetário por parte de governos e bancos centrais

Servilismo e obediência dos cidadãos

Qualquer economia que se veja afectada por uma pandemia requer uma série de condições que permitam, num primeiro momento, adaptar-se às novas circunstâncias com o mínimo custo possível e, uma vez superada a pandemia, iniciar uma recuperação sã e sustentável. Já vimos, na primeira parte deste trabalho, os possíveis impactos estruturais que uma pandemia pode gerar a curto, médio e, eventualmente, longo prazo, e o papel que o natural incremento da incerteza gerada pela pandemia tem, num primeiro momento, sobre o aumento da procura por dinheiro e sobre o seu poder aquisitivo: num ambiente de confinamentos (sectoriais ou generalizados), em que temporariamente se paralise a actividade produtiva, é particularmente importante que se produza uma concomitante diminuição da procura, para libertar bens e serviços de consumo que permitam atender ao nível mínimo necessário para que todos aqueles que se viram obrigados a suspender a sua actividade produtiva e laboral possam continuar a consumir. Quer dizer, o aumento dos saldos de tesouraria e a redução dos preços nominais facilitam a adaptação dos consumidores e dos agentes económicos às difíceis circunstâncias, ao mesmo tempo que tornam possível uma resposta rápida de todos, uma vez que se comece a ver a luz ao fundo do túnel, e a confiança se comece a restabelecer. Em todo o caso, é preciso que a economia seja “dinamicamente eficiente”,[46] para que se possam descobrir e aproveitar as oportunidades que comecem a surgir e assim fazer arrancar a retoma económica. As condições da eficiência dinâmica são dadas por tudo aquilo que torne possível e facilite o livre-exercício da função empresarial, simultaneamente criativa e coordenadora de todos os agentes económicos, de maneira a que estes sejam capazes de mobilizar os recursos disponíveis para novos projectos de investimento que sejam rentáveis e sustentáveis e que se foquem na produção dos bens e serviços que satisfaçam as necessidades dos cidadãos e sejam por estes exigidos de forma autónoma a curto, médio e longo prazo. Num contexto de economias fortemente intervencionadas, como aquele em que nos encontramos, isto exige que se desenvolva, com total agilidade, o processo de formação e fixação de preços característico do sistema de livre iniciativa, para o que será necessário liberalizar ao máximo os mercados, em especial o mercado laboral, e o resto dos factores de produção, eliminando as regulações que tornam a economia rígida. Adicionalmente, é preciso que não sejam delapidados pelo sector público os recursos de que as empresas e os agentes económicos necessitam, primeiro para fazer frente aos estragos da pandemia e sobreviver, e depois para, quando as coisas melhorarem, fazer uso de todas as poupanças e recursos ociosos disponíveis a fim de construir a recuperação. É imprescindível proceder a uma redução generalizada dos impostos, que deixe o máximo de recursos nos bolsos dos cidadãos, e, principalmente, que se libertem de encargos os lucros empresariais e a acumulação de capital. É preciso recordar que os lucros são o sinal imprescindível que guia os empresários no seu insubstituível trabalho criativo e coordenador de detectar, empreender e culminar projectos de investimento rentáveis e sustentáveis que gerem emprego permanente. É necessário promover – e não castigar – fiscalmente, a acumulação de capital, se se quer favorecer as classes trabalhadoras, especialmente aquelas mais vulneráveis, pois o salário que cobram vem determinado, em última instância, pela sua produtividade, que será tanto maior quanto mais elevado seja o volume per capita de capital em forma de bens de equipamento cada vez mais dispendiosos e sofisticados postos à sua disposição pelos empresários. No que diz respeito ao mercado laboral, deve evitar-se todo o tipo de regulações que reduza a oferta, mobilidade e plena disponibilidade para os trabalhadores se reincorporarem de forma rápida e ágil nos novos projectos de investimento. Assim, são particularmente prejudiciais a fixação de salários mínimos, o enrijecer e sindicalizar das relações laborais no seio da empresa, a obstaculização e sobretudo a proibição legal de efectuar despedimentos, a criação de subsídios e ajudas (em forma de expedientes de regulação de emprego temporário, subsídios de desemprego, rendimento básico universal) que, de forma combinada, podem desincentivar a procura e o desejo de encontrar trabalho ou colocação, se se tornar evidente que, para muitos, é mais interessante viver dos subsídios, sem trabalhar oficialmente, dedicando o seu esforço à economia paralela.[47] Todas estas medidas e reformas estruturais devem ser combinadas com a reforma do “Estado-Providência”, dirigida a devolver a responsabilidade das reformas, saúde e educação à sociedade civil, permitindo àqueles que o desejem subcontratar no sector privado as suas prestações, com a correspondente dedução fiscal (já indicámos na secção anterior como quase 80% dos milhões de funcionários espanhóis optam todos os anos livremente pela saúde privada em detrimento da pública; por algo será…).

É bastante claro, portanto, o caminho a seguir em termos da política económica mais adequada para enfrentar uma pandemia e, principalmente, para recuperar da mesma. Os seus princípios essenciais são, ou bem amplamente conhecidos, ou bem um “segredo de polichinelo”, em especial, neste último caso, por parte de todos aqueles que caem na armadilha de alimentar a demagogia populista, criando espectativas falsas e irrealizáveis entre uma população tão atemorizada e desorientada como a que surge, compreensivelmente, em épocas de pandemia.[48]

 

Esgotamento da política ultra-permissiva dos anos anteriores à Pandemia

Focando-nos na actual Pandemia de COVID-19, a qual temos vindo a analisar como principal ilustração neste trabalho, importa destacar uma peculiaridade muito importante que condiciona e enviesa, ainda mais negativamente do que seria necessário, o futuro da sua evolução económica. Com efeito, esta Pandemia surge e expande-se por todo o mundo a partir de 2020 num contexto em que, previamente, e desde muitos meses antes ou inclusivamente anos, sob o principal pretexto de ajudar a incipiente recuperação pós-Grande Recessão de 2008, e mais tarde para fazer frente às supostas ou reais incertezas que sempre vão surgindo (proteccionismo populista de Trump, Brexit, etc.), os bancos centrais de todo o mundo já tinham iniciado uma política monetária ultra-permissiva, de taxas de juro nulas ou inclusive negativas e de injecções monetárias com um grau de intensidade, extensão e coordenação internacional nunca antes visto na história económica da humanidade.

No meu artigo sobre “A Japonização da União Europeia”,[49] explico como as políticas monetárias ultra-permissivas empreendidas pelos bancos centrais previamente ao aparecimento da Pandemia tiveram um efeito contraproducente. Por um lado, e em primeiro lugar, fracassaram ostensivamente na hora de fazer subir os preços a um nível próximo dos 2%. De facto, a injecção monetária maciça foi, em grande medida, esterilizada, num ambiente de grande rigidez institucional e de incerteza, por um aumento concomitante e generalizado da procura por dinheiro por parte dos agentes económicos, ao reduzir-se a zero o custo de oportunidade de manter saldos de tesouraria; além de não surgirem oportunidades de investimento sustentáveis numa moldura de constante regulação e intervencionismo económico, que frustra as expectativas de lucro e impede que se recupere totalmente a confiança perdida a partir da Grande Recessão de 2008. Por este motivo, também não foi possível corrigir todos os erros de investimento cometidos durante os anos da bolha e expansão creditícia anteriores a 2008. Por outro lado, e em segundo lugar, no momento em que os bancos centrais empreenderam as suas políticas de injecção monetária maciça, de “quantitative easing” e de redução a zero das taxas de juro, eliminaram-se “ipso facto” todos os incentivos que os diferentes governos (de Espanha, Itália, França, etc.) poderiam ter para começar ou culminar as reformas económicas, regulatórias e institucionais que têm pendentes e que são imprescindíveis para promover um ambiente de confiança em que os empresários, livres de amarras e de obstáculos inúteis, possam dedicar-se a desenvolver a sua criatividade e a investir a longo prazo, gerando postos de trabalho sustentáveis. Na realidade, que governo vai assumir o elevado custo político de, por exemplo, sanear as suas contas e liberalizar o mercado de trabalho se, na prática, não importa o nível de deficit em que incorra, já que este vai ser directa ou indirectamente financiado e a custo zero – quer dizer, completamente monetizado – pelo Banco Central? Desta forma, por exemplo, o Banco Central Europeu já é titular de quase um terço da dívida soberana emitida pelos Estados-Membros da Zona Euro e, desde o momento em que iniciou a sua política de compra indiscriminada da mesma, deteve-se todo o processo de reformas económicas e institucionais necessárias “como pão para a boca”. A conclusão da teoria económica não pode ser mais clara: numa envolvente de grande rigidez institucional e intervencionismo económico, as políticas monetárias ultra-permissivas só servem para manter indefinidamente a rigidez e atonia das economias afectadas e para incrementar o endividamento dos respectivos sectores públicos até limites dificilmente sustentáveis.

 

Reacção dos bancos centrais perante a surpresa do surgimento da Pandemia

Foi neste cenário económico tão preocupante, e em que os bancos centrais praticamente já esgotaram todo o seu arsenal de “armas não convencionais” de política monetária ultra-permissiva, quando surgiu, de surpresa, a partir de janeiro de 2020, a pandemia do COVID-19. A reacção das autoridades monetárias consistiu, simplesmente, em mais do mesmo: redobrar a injecção monetária – ou ainda mais, se possível – não só incrementando os seus programas de compra de activos financeiros (cujo preço, para gáudio dos grandes investidores, como fundos de investimento, hedge funds, etc., não parou de subir, incrementando assim os bancos centrais a fortuna de uns poucos, quando a economia da maior parte dos cidadãos se contrai e entra em recessão). No entanto, para além disso, começa efectivamente, através de ajudas e subsídios directos que se financiam via deficit público monetizado, a distribuir-se de forma crescente o novo dinheiro, que já vai chegando, numa parte relevante, directamente ao bolso das próprias economias domésticas. Todavia, já sabemos, pelo menos desde Hume,[50] em 1752, que a mera distribuição paritária de unidades monetárias carece de efeitos reais.[51] Por este motivo, as autoridades monetárias de todo o mundo não querem nem ouvir falar no famoso “helicóptero de Friedman” como instrumento para a sua política monetária, pois esta só produz efeitos aparentes de expansão quando são apenas alguns, poucos, os sectores, as empresas e os agentes económicos que recebem, num primeiro momento, o novo dinheiro, com todas as consequências colaterais de incremento da desigualdade na distribuição da rendimento a favor dos poucos que mencionámos antes, ao discutirmos os efeitos das políticas de “quantitative easing” como factor determinante do enriquecimento dos que actuam nos mercados financeiros. Em todo o caso, o que é inquestionável é que, mais cedo ou mais tarde, o novo dinheiro, na medida em que não seja esterilizado pelos bancos privados[52] e pelos sectores industriais desmoralizados, terminará por chegar ao bolso dos consumidores, gerando pressões inflacionistas, à medida que o efeito Hume de perda inexorável de poder aquisitivo da unidade monetária se manifesta. Este efeito vai-se tornar cada vez mais evidente à medida que se vá superando a incerteza inicial das economias domésticas e estas considerem que não é necessário manter saldos de tesouraria tão elevados, ou simplesmente se vejam obrigadas a gastar o dinheiro que recebem em subsídios para sobreviverem enquanto os seus membros estejam desempregados e não possam produzir. De qualquer forma, tudo aponta na mesma direcção: uma crescente oferta monetária sobre uma produção contraída como consequência da Pandemia leva inexoravelmente a uma crescente pressão para a subida dos preços.[53] Isto é precisamente o que já se começa a constatar no momento em que escrevo estas linhas (Janeiro 2021). Por exemplo, o preço dos produtos agrícolas não deixa de subir e alcançou o seu máximo dos últimos três anos; o mesmo está a acontecer com os fretes e com muitas outras matérias primas (minerais, petróleo, gás natural, etc.), que estão a alcançar preços muito elevados, inclusive recorde…

 

O beco sem saída em que se encontram os bancos centrais

A conclusão não pode ser mais clara. Os bancos centrais meteram-se num verdadeiro beco sem saída. Se fogem para a frente e promovem ainda mais a política de expansão monetária e monetização de um deficit público que não deixa de aumentar, correm o risco de gerar uma grave crise de dívida pública e inflação. Mas se, perante o temor de passarem de um cenário de “japonização” antes da Pandemia a um de “venezuelização” depois da mesma, detêm a sua política monetária ultra-permissiva, então será de imediato evidente a sobrevalorização dos mercados de dívida pública e gerar-se-á uma importante crise financeira e recessão económica, tão dolorosa quanto saudável a médio e longo prazo. Como demonstra o “Teorema da Impossibilidade do Socialismo”, é impossível que os bancos centrais (verdadeiros órgãos de planificação financeira central) sejam capazes de acertar na política económica mais conveniente em cada momento.

Perante a actual e difícil tessitura, é muito ilustrativo observar as recomendações e as reacções que, de maneira cada vez mais nervosa e inquieta (eu diria inclusive “histérica”), vertem os investidores, especialistas, comentadores e inclusivamente os responsáveis económicos e autoridades monetárias de maior renome.

Deste modo, por exemplo, publicam-se continuamente novos artigos e comentários, especialmente nos jornais “de páginas amareladas”, liderados pelo Financial Times, tendentes sempre a tranquilizar os mercados e que, invariavelmente, enviam a mensagem de que as taxas de juro a zero (ou inclusivamente negativas) vão permanecer assim por muitos anos, já que os bancos centrais não vão desistir das suas políticas monetárias ultra-permissivas, pelo que os investidores podem estar tranquilos e continuar a enriquecer operando e comprando nos mercados de dívida. Os bancos centrais, pelo seu lado, colocando a venda nos olhos antes da ferida, anunciam a revisão dos seus objectivos de inflação, com o propósito de os “flexibilizar” (obviamente em alta), sob o pretexto de compensar deste modo os anos em que se viram incapazes de os alcançar e para justificar que não tomem medidas de controlo monetário, mesmo no caso em que a inflação dispare.[54] Outros assessores das autoridades monetárias propõem mesmo abandonar a meta de inflação para introduzir directamente, como objectivo, manter uma determinada curva de taxas de juro particularmente reduzida (quer dizer, juros nulos e inclusivamente negativos para muitos prazos da curva de taxas de juro, que se obteriam através de todas as operações em “mercado aberto” que fossem necessárias para o efeito). Tudo isto, exaltado pelos corifeus da chamada “Modern Monetary Theory”, que, apesar da sua denominação, nem é moderna, nem é teoria monetária, mas tão só um pot-pourri de velhas receitas Keynesianas e mercantilistas, mais próprias de alquimistas de séculos passados (já que mantêm que o deficit é irrelevante, por poder ser financiado sem limite através da emissão e monetização da dívida) que de verdadeiros teóricos da nossa disciplina, mas que fazem estragos entre os nossos responsáveis económicos e monetários.[55] Chegamos assim à última das “ocorrências” que está a alcançar uma crescente popularidade: o perdão da dívida pública adquirida pelos bancos centrais (que, já vimos, é próxima a um terço da totalidade emitida).

Antes de mais, é obvio que a todos aqueles que se juntaram ao coro em favor deste perdão lhes cai a máscara, já que se, como afirmam, os bancos centrais sempre vão recomprar, a uma taxa de juro zero, a dívida que se emita para fazer frente aos vencimentos que vão chegando, não se percebe para que seria necessário um perdão. O mero facto de que o peçam, precisamente agora, põe de manifesto o seu nervosismo perante os crescentes sinais de reviravolta inflacionária e o seu concomitante temor de que os mercados de dívida se afundem e as taxas de juro voltem a subir. Nestas circunstâncias, seria fulcral para eles que a pressão sobre os governos esbanjadores se suavizasse, com um perdão que equivaleria a cerca de um terço do total da dívida emitida e que só prejudicaria uma instituição tão abstracta e afastada para a generalidade do público como é o banco central. Mas as coisas não são tão fáceis como parecem. Ao levar-se a cabo um perdão como o que agora se solicita, revelar-se-ia evidente o seguinte: primeiro, que os bancos centrais se limitaram a criar o dinheiro que injectaram no sistema através dos mercados financeiros, enriquecendo exorbitantemente a uns poucos sem conseguir, ao fim ao cabo, efeitos reais apreciáveis (à margem da redução artificial das taxas de juro e da simultânea destruição da alocação eficiente dos recursos produtivos).[56] Em segundo lugar, o clamor popular contra esta política alcançaria tal magnitude, que os bancos centrais  perderiam, não só toda a sua credibilidade,[57] como também a possibilidade de repetir, no futuro, as suas políticas de compras em mercado aberto (“quantitative easing”), vendo-se assim obrigados pelas circunstâncias a limitar as injecções monetárias às que se possam fazer directamente aos cidadãos (“helicóptero de Friedman”), as únicas “equitativas” desde o ponto de vista dos seus efeitos sobre a distribuição do rendimento, mas que, ao carecerem de efeitos reais de expansão constatáveis a curto prazo, significariam a morte definitiva da capacidade dos bancos centrais de influir nas economias do futuro de uma forma apreciável com a sua política monetária.

Neste contexto, a única recomendação sensata que se pode dar aos investidores é que vendam todas as suas posições em dívida o quanto antes, pois não se sabe por quanto tempo mais os bancos centrais poderão continuar a manter de forma artificial o preço da mesma tão exorbitado como nunca se viu na história da Humanidade. Existem, de facto, indícios mais que suficientes de que os investidores mais avisados, como os hedge funds e outros, utilizando derivados e outras técnicas sofisticadas, já estão a apostar pelo colapso dos mercados de dívida, ao mesmo tempo que, oficialmente, não deixam de filtrar aos meios de comunicação mensagens e recomendações tranquilizadoras, utilizando os comentadores com mais prestígio,[58] como não podia deixar de ser, pois pretendem “sair” do mercado de dívida sem que se note, e ao preço mais alto possível.

 

Os últimos foguetes da despesa pública

E assim chegamos à ultima receita que se propõe com carácter fundamental para sair da crise gerada pela Pandemia e recuperar a normalidade: nada de sanear as contas públicas nem de emagrecer a despesa pública improdutiva das mesmas; nada de reduzir a pressão fiscal, nem aligeirar a carga burocrática e regulatória aos empresários para que estes recuperem a confiança e se lancem a investir. Nada disso e tudo o contrário: recorrer ao máximo à política fiscal, incrementando a despesa pública ainda mais e de forma desorbitada – isso sim, dizem, dando prioridade aos investimentos ecológicos, em digitalização e em infraestruturas. Só que este novo estertor da política fiscal é pró-cíclico e perturbadoramente contraproducente. Deste modo, quando chegue a partir do próximo Verão de 2021 o “maná” dos 140 000 milhões de euros concedidos pela União Europeia a Espanha a fundo perdido (de um programa total de 750 000 milhões organizado pelas autoridades da União Europeia e ampliáveis até 1,85 biliões em forma de empréstimos), é mais que provável que, tanto a economia de Espanha, como as do resto da União Europeia, já estejam a recuperar de forma autónoma, pelo que esses fundos vão absorver e desviar recursos escassos que são imprescindíveis para que o sector privado possa iniciar e culminar os novos projectos de investimento que, pela sua verdadeira rentabilidade, por si só e sem ajudas públicas, podem gerar um elevado volume de emprego sustentável a curto, médio e longo prazo, que contrasta com o emprego sempre precário e dependente de decisões políticas que gera a despesa pública consuntiva, ainda que se tratem de projectos faraónicos de “transição” ecológica e digital. E isto sem que seja preciso mencionar a consubstancial ineficiência do sector público no momento de canalizar os recursos que vão chegar e a inevitável politização na distribuição dos mesmos, sempre muito vulnerável à procura e manutenção do correspondente clientelismo político. Todos recordamos, por exemplo, o denominado “Plan E” de injecção de despesa pública, promovido pelo governo socialista de Zapatero para fazer frente à Grande Recessão de 2008.[59] Ou o lamentável fracasso da política fiscal de grande incremento da despesa pública no Japão, que não teve outro efeito apreciável que não fosse o de converter esse país no mais endividado do mundo. Enfim, uma história que se repete uma e outra vez.

 

Conclusão

Não existem atalhos milagrosos para sair de uma crise tão grave como a gerada pela actual Pandemia. Ainda que os governos e as autoridades monetárias se esforcem por apresentar-se perante os cidadãos como os seus imprescindíveis “salvadores”, graças ao seu esforço e actividade frenética e fazendo coisas aparentemente benéficas; ainda que uns e outros sistematicamente ocultem a sua incapacidade intrínseca, tal como põe de manifesto a Escola Austríaca, para acertar e deter a informação de que precisam para dar um conteúdo coordenador aos seus mandatos; ainda que as suas acções sejam sistematicamente irresponsáveis e contraproducentes, por delapidarem os recursos escassos e impossibilitarem a correcta alocação de recursos e o cálculo económico racional nos processos de investimento – apesar de tudo isso, quer dizer, apesar dos governos e dos bancos centrais, daqui a poucos anos a Pandemia de COVID-19 será simplesmente uma triste recordação histórica, que será esquecida pelas gerações vindouras, da mesma forma que já ninguém recordava os muito maiores estragos sanitários e económicos produzidos pela “Gripe Espanhola” faz já um século. Agora, como então, vamos seguir em frente como resultado do nosso esforço individual e colectivo, tratando de avançar com criatividade os nossos projectos vitais por entre os resquícios de liberdade de iniciativa e de mercado não intervencionado que, apesar de tudo, continuem abertos.

 

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[46] Jesús Huerta de Soto, “La teoría de la eficiencia dinámica”, Procesos de Mercado, vol. 1, n.º 1, primavera 2004, págs. 11-71. [Também pode ser consultada a versão inglesa original indicada anteriomente. (N.T.)]

[47] Para além disto, o indicado em Jesús Huerta de Soto, Dinero, crédito bancário y ciclos económicos, ob. cit., págs. 356-352.

[48] Por exemplo, P. Bagus, J.A. Peña Ramos e A. Sanchéz Bayón, “Covid-19 and the Political Economy of Mass Hysteria”, Int. J. Environ. Res. Public Health, 2021, 18 (4) 1376.

[49] Jesús Huerta de Soto, “La Japonisación de la Unión Europea”, Procesos de Mercado, Vol. XVI, n.º 2, Outono 2019, págs. 317-342. Por outro lado, é plenamente aplicável o “Teorema da Impossibilidade do Socialismo” aos bancos centrais, tal como se demonstra em Jesús Huerta de Soto, Dinero, crédito bancário y ciclos económicos, ob. cit., págs. 503-525.

[50] David Hume, “Of Money” em Essays: Moral, Political and Literary, E.F. Miller (ed.), Liberty Classics, Indianápolis IN, 1985, pág. 281 e seguintes. Hume refere-se expressamente a que se, por um milagre, cada homem da Grã-Bretanha encontrasse cinco libras adicionais no seu bolso durante a noite, isso não teria nenhum efeito, salvo diminuir o poder aquisitivo do dinheiro (quer dizer, aumentar os preços nominais), pois a capacidade produtiva do Reino Unido permaneceria idêntica (pág. 299). Com o seu famoso “helicóptero”, Friedman limitou-se a copiar e actualizar este exemplo de Hume (sem o citar). [Pode encontrar-se uma cópia dos ensaios de Hume referidos pelo autor no seguinte enlace: https://maisliberdade.pt/ biblioteca/essays-moral-political-literary/ (N.T.)]

[51] Por exemplo, o próprio Mervyn King, ex-governador do Banco de Inglaterra, não teve outro remédio que não acabar por reconhecer o seguinte: “A narrativa em vigor diz que a combinação de estímulos fiscais e monetários foi um êxito contra a Pandemia, mas eu acabo por não ver o benefício do activismo monetário dos bancos centrais. Ando há dias a discutir com a minha mulher se é um bom momento para irmos jantar ao nosso restaurante favorito: o teor dessa discussão não vai mudar por nos continuarem a reduzir as taxas de juro.” El País, 17 de Janeiro de 2021, pág. 38.

[52] A relação das autoridades com os bancos privados é “esquizofrénica”: por um lado, inundam-nos de liquidez para que emprestem, e, por outro, ameaçam-nos continuamente com exigências de mais capital e de que vigiem de perto a quem emprestam.

[53] Entre outros, Michael D. Bordo e Mickey D. Levy, “The Short March Back to Inflation”, The Wall Street Journal, 4 de Fevereiro de 2021, pág. A17.

[54] A adopção desta política provoca tal tensão na governabilidade do Euro que, muito possivelmente, o pode pôr em risco de desaparecer.

[55] Por exemplo, Patrick Newman, “Modern Monetary Theory: An Austrian Interpretation of Recrudescent Keynesianism”, Atlantic Economic Journal, n.º 48, 2020, págs. 23-31, assim como os artigos críticos de Mark Skousen e Gordon L. Brady, publicados no mesmo número dessa revista. Entre os abduzidos pela “Modern Monetary Theory” encontra-se o próprio Mario Draghi: veja-se, por exemplo, “Las claves del plan Draghi” para salvar a Itália, ABC, 4 de Fevereiro de 2021, pág. 30.

[56] É uma verdadeira tragédia que especialistas, políticos e cidadãos se tenham esquecido que o mais importante de entre todos os preços – e, portanto, aquele que é o mais transcendental – deve ser fixado pelo livre-mercado. A taxa de juro, que é o preço dos bens presentes em função dos bens futuros, não pode ser manipulada impunemente pelos governos e bancos centrais sem que se bloqueie o cálculo económico e a correcta alocação inter-temporal dos recursos produtivos.

[57] Entre outras coisas, sem activos para vender, por os haver perdoado, não poderiam drenar reservas do sistema se isso fizesse falta perante um regresso da inflação. Apenas no contexto de uma transição irrevogável para um sistema bancário com um coeficiente de caixa de 100%, como a que proponho no meu livro, Dinheiro, crédito bancário e ciclos económicos (ob. cit., págs. 615 e seguintes) teria sentido perdoar a dívida pública em poder do banco central para evitar que este se tornasse titular de uma parte significativa da economia real quando se trocasse a dívida pelos activos bancários que hoje em dia contrabalançam os depósitos à vista.

[58] Veja-se, por exemplo, a litania de comentários e recomendações de política monetária e fiscal do prestigioso Martin Wolf no Financial Times, ou do próprio Paul Krugman no suplemento económico do El País, nos que praticamente não há semana em que não deixem de recomendar mais injecção monetária e mais despesa pública.

[59] [O “Plan E” – Plan Español para el Estímulo de la Economía y el Empleo, foi um plano económico desenvolvido pelo governo de Rodríguez Zapatero para estimular a economia e o emprego através da despesa pública. Como esta atingiu com especial gravidade o sector da construção, tentou-se que os municípios promovessem obras públicas, de utilidade bastante questionável, ao ponto de mesmo o jornal de grande tiragem tendencialmente mais afim ao Partido Socialista, o El País, ter posto em causa a êxito do plano: https://elpais.com/diario/2009/08/30/economia/1251583202_850215.html. Zapatero acabaria por de-mitir e convocar eleições antecipadas em grande parte após o fracasso deste plano infeliz. (N.T.)]