{"id":8347,"date":"2021-05-03T20:33:57","date_gmt":"2021-05-03T18:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/?page_id=8347"},"modified":"2021-05-03T20:44:06","modified_gmt":"2021-05-03T18:44:06","slug":"efeitos-das-pandemias-sobre-a-estrutura-produtiva-real-mercado-de-trabalho-processo-de-etapas-dos-bens-de-capital-e-impacto-da-incerteza","status":"publish","type":"articulo","link":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/articles\/artigos-em-portugues\/os-efeitos-economicos-da-pandemia\/efeitos-das-pandemias-sobre-a-estrutura-produtiva-real-mercado-de-trabalho-processo-de-etapas-dos-bens-de-capital-e-impacto-da-incerteza\/","title":{"rendered":"Efeitos das pandemias sobre a estrutura produtiva real: mercado de trabalho, processo de etapas dos bens de capital e impacto da incerteza"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mercado de Trabalho<\/strong><\/p>\n<p>O aparecimento de uma nova doen\u00e7a altamente contagiosa, que se estende por todo o mundo com uma alta mortalidade, constitui, sem nenhuma d\u00favida, um cen\u00e1rio catastr\u00f3fico capaz de provocar a curto, m\u00e9dio e, inclusive, longo prazo toda uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias econ\u00f3micas relevantes. Entre elas, destaca-se, em primeiro lugar, o custo em termos de v\u00edtimas humanas, muitas delas ainda plenamente criativas e produtivas. Recordemos, por exemplo, que se estima que a denominada \u201cGripe Espanhola\u201d tenha provocado, a partir de 1918, entre 40 e 50 milh\u00f5es de v\u00edtimas em todo o mundo (isto \u00e9, o triplo dos falecidos da Primeira Guerra Mundial, entre combatentes e civis); devorando principalmente homens e mulheres relativamente jovens e robustos, ou seja, em plena idade produtiva.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref1\">[4]<\/a> Por contraste, a actual Pandemia de COVID-19, causada pelo v\u00edrus SARS-CoV-2, ainda que produzindo sintomas relativamente leves em 85% dos contagiados, \u00e9 grave para os restantes 15%, requerendo inclusivamente hospitaliza\u00e7\u00e3o para um ter\u00e7o destes e causando a morte a cerca de um em cada cinco hospitalizados graves, a imensa maioria dos quais pessoas idosas j\u00e1 reformadas ou com patologias pr\u00e9vias importantes.<\/p>\n<p>Portanto, a pandemia actual n\u00e3o est\u00e1 a ter efeitos apreci\u00e1veis sobre a oferta de m\u00e3o-de-obra e talento humano no mercado de trabalho, pois o incremento de falecimentos em pessoas em idade de trabalhar que esta provoca \u00e9 relativamente reduzido. Como j\u00e1 t\u00ednhamos mencionado, esta situa\u00e7\u00e3o contrasta em grande medida com a que se gerou durante a \u201cGripe Espanhola\u201d, ap\u00f3s a qual se registou uma contrac\u00e7\u00e3o da oferta de trabalho, estimada a n\u00edvel agregado mundial em mais de 2%, tendo em conta tanto os falecidos pela doen\u00e7a como os que perderam a vida durante a Primeira Guerra Mundial (40 ou 50 milh\u00f5es de baixas pela doen\u00e7a e mais de 15 milh\u00f5es pelo conflito b\u00e9lico). Esta escassez relativa de m\u00e3o-de-obra n\u00e3o deixou de exercer uma press\u00e3o de subida dos sal\u00e1rios reais durante os \u201cloucos anos vinte\u201d do s\u00e9culo passado, durante os quais se consumou uma reestrutura\u00e7\u00e3o da economia mundial, de uma economia de guerra a uma de paz, processo que foi simultaneamente acompanhado por uma grande expans\u00e3o credit\u00edcia, cuja an\u00e1lise detalhada n\u00e3o podemos elaborar aqui, mas que assentou as bases para a \u201cGrande Depress\u00e3o\u201d que se manifestou a partir da grave crise financeira de 1929.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref2\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, diversas pandemias tiveram um impacto bastante maior sobre o mercado de trabalho. Assim, por exemplo, destaca-se a grande peste que assolou a Europa a partir de 1348 e que se estima que tenha reduzido pelo menos num ter\u00e7o o volume total da popula\u00e7\u00e3o. Deste modo, fruto da grande escassez de m\u00e3o-de-obra resultante da pandemia, verificou-se um aumento importante dos sal\u00e1rios reais, que se consolidou nas d\u00e9cadas subsequentes. A este respeito, \u00e9 exasperante constatar como os economistas de tipo monetarista e, principalmente, Keynesiano, continuam a \u201cbater na tecla\u201d dos supostos efeitos \u201cben\u00e9ficos\u201d de guerras e pandemias (sup\u00f5e-se que com excep\u00e7\u00e3o dos milh\u00f5es de falecidos e empobrecidos que estas causam). Argumentam eles que estas trag\u00e9dias permitem que as economias saiam da sua in\u00e9rcia e entrem no trilho de uma \u201cprosperidade\u201d efervescente, ao mesmo tempo que justificam as suas pol\u00edticas econ\u00f3micas de intenso intervencionismo monet\u00e1rio e fiscal. Mises, com a sua habitual perspic\u00e1cia, qualifica de puro \u201cdestrutivismo econ\u00f3mico\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref3\">[6]<\/a> essas teorias pol\u00edticas e econ\u00f3micas, que apenas justificam e procuram aumentar a oferta monet\u00e1ria <em>per capita<\/em> e, acima de tudo, o gasto das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref4\">[7]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estrutura produtiva e bens de capital<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 parte destes efeitos sobre a popula\u00e7\u00e3o e o mercado laboral, devemos tamb\u00e9m considerar, em segundo lugar, o impacto de uma pandemia sobre a taxa social de prefer\u00eancia temporal e, portanto, sobre a taxa de juro e etapas da estrutura produtiva de bens de capital. Neste sentido, talvez o cen\u00e1rio mais catastr\u00f3fico que cabe conceber seja o descrito por Boccaccio na introdu\u00e7\u00e3o do seu <em>Decamer\u00e3o<\/em>, a respeito da peste bub\u00f3nica que flagelou a Europa no s\u00e9c. XIV. \u00c9 muito compreens\u00edvel que as valora\u00e7\u00f5es subjectivas se orientem ao presente e ao consumo imediato, se se generalizar a convic\u00e7\u00e3o de que existe uma alta probabilidade de cont\u00e1gio e falecimento a curto ou m\u00e9dio prazo. \u201cComamos e bebamos, que amanh\u00e3 vamos morrer\u201d, ou \u201carrependamo-nos, fa\u00e7amos penit\u00eancia e rezemos, pondo a nossa vida espiritual em ordem\u201d s\u00e3o duas posturas antag\u00f3nicas perfeitamente compreens\u00edveis face \u00e0 pandemia e que, curiosamente, t\u00eam o mesmo efeito econ\u00f3mico: Que sentido tem poupar e empreender projectos de investimento que s\u00f3 poder\u00e3o dar fruto num futuro long\u00ednquo, se nem n\u00f3s nem os nossos filhos estaremos c\u00e1 para os aproveitar? O resultado l\u00f3gico que, por exemplo, se p\u00f4de observar na Floren\u00e7a do s\u00e9c. XIV, assolada pela peste bub\u00f3nica, foi o abandono em massa de granjas, gado, campos e oficinas e, em geral, o descuido e consumo sem reposi\u00e7\u00e3o dos bens de capital.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref5\">[8]<\/a> Este fen\u00f3meno pode ilustrar-se graficamente de forma simplificada, tal como o explico na parte dedicada \u00e0s \u201ceconomias em recess\u00e3o\u201d do meu livro <em>Dinero, cr\u00e9dito banc\u00e1rio y ciclos econ\u00f3micos<\/em>,<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref6\">[9]<\/a> utilizando os famosos tri\u00e2ngulos Hayekianos, que representam a estrutura produtiva de uma sociedade (e cujo significado e explica\u00e7\u00e3o detalhada se pode consultar nas p\u00e1ginas 233 e seguintes do mesmo livro).<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref7\">[10]<\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8352 size-full\" src=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-1-1.png\" alt=\"\" width=\"597\" height=\"223\" data-id=\"8352\" srcset=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-1-1.png 597w, https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-1-1-300x112.png 300w\" sizes=\"(max-width: 597px) 100vw, 597px\" \/><\/p>\n<p>Como se v\u00ea no Gr\u00e1fico 1, neste caso produz-se um s\u00fabito e intenso aumento da taxa social de prefer\u00eancia temporal, que incrementa o consumo monet\u00e1rio imediato (figura b), em detrimento do investimento. Em concreto, v\u00e1rias etapas do processo produtivo, representadas pela \u00e1rea sombreada na figura (c), s\u00e3o abandonadas, uma parte muito importante da popula\u00e7\u00e3o deixa de trabalhar (por falecimento ou voluntariamente) e os que sobrevivem dedicam-se com afinco a consumir bens de consumo (cujos pre\u00e7os em unidades monet\u00e1rias disparam, perante a contrac\u00e7\u00e3o da sua oferta e a diminui\u00e7\u00e3o generalizada da procura por dinheiro). As transac\u00e7\u00f5es no mercado inter-temporal de fundos prest\u00e1veis s\u00e3o praticamente interrompidas e as poucas que se efectuam s\u00e3o-no a taxas de juro com valores \u201cproibitivos\u201d.<\/p>\n<p>Contrastando com o cen\u00e1rio anterior, n\u00e3o existem ind\u00edcios de que, na actual Pandemia de COVID-19, se tenha produzido uma modifica\u00e7\u00e3o significativa da taxa social de prefer\u00eancia temporal (mais al\u00e9m do efeito do incremento temporal da incerteza que veremos mais adiante). Por um lado, as circunst\u00e2ncias actuais n\u00e3o se assemelham, nem por assomo, \u00e0s de uma pandemia t\u00e3o grave como a descrita por Boccaccio no <em>Decamer\u00e3o<\/em>. Como indic\u00e1mos, a mortalidade previs\u00edvel da popula\u00e7\u00e3o em idade de trabalhar \u00e9 praticamente irrelevante e as expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao feliz culminar dos processos de investimento de maturidade temporal mais long\u00ednqua permanecem inalteradas (por exemplo, continua a investir-se no design, inova\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o dos futuros carros el\u00e9ctricos, e em v\u00e1rios outros projectos com investimentos a longo prazo). Se n\u00e3o se produziu uma muta\u00e7\u00e3o significativa na taxa social de prefer\u00eancia temporal, tamb\u00e9m n\u00e3o se produz uma altera\u00e7\u00e3o da estrutura de etapas de produ\u00e7\u00e3o de bens de capital descrita de forma simplificada no gr\u00e1fico Hayekiano, salvo por tr\u00eas efeitos: um de muito curto prazo, outro de dura\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio prazo (entre 1 e 3 anos) e o terceiro de dura\u00e7\u00e3o mais prolongada e inclusivamente indefinida.<\/p>\n<p>1. O primeiro caso \u00e9 o de efeito imediato e temporalmente reduzido (de uns poucos meses) que t\u00eam sobre a estrutura produtiva real os confinamentos coercivos impostos pelos governos. Pode-se supor que a \u201cparagem\u201d econ\u00f3mica decretada durante uns meses tenha afectado, em termos relativos, principalmente o esfor\u00e7o produtivo mais afastado do consumo final: ao fim e ao cabo, a popula\u00e7\u00e3o, inclusivamente a confinada que n\u00e3o p\u00f4de trabalhar, continuou a necessitar e a consumir bens e servi\u00e7os de consumo (nem que fosse atrav\u00e9s do com\u00e9rcio electr\u00f3nico \u2013 Amazon, etc. \u2013 j\u00e1 que muitas lojas e distribuidores finais foram obrigados a fechar, ao n\u00e3o poder ser considerados \u201cactividades essenciais\u201d). Se isto foi assim, supondo tamb\u00e9m que a procura monet\u00e1ria final dirigida ao consumo n\u00e3o se viu significativamente alterada, j\u00e1 seja porque as economias dom\u00e9sticas, obrigatoriamente paradas por imposi\u00e7\u00e3o das autoridades, fizeram uso das suas reservas financeiras ou porque substitu\u00edram a diminui\u00e7\u00e3o dos ingressos por fundos procedentes de subs\u00eddios temporais por desemprego (ERTES, ERES, etc.),<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref1\">[11]<\/a> a estrutura produtiva em termos monet\u00e1rios ter\u00e1 oscilado ao longo de um curto espa\u00e7o de tempo, de forma pendular, tal como se mostra abaixo (gr\u00e1fico 2):<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8353 size-full\" src=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-2-1.png\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"257\" data-id=\"8353\" srcset=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-2-1.png 610w, https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-2-1-300x126.png 300w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<p>Em qualquer caso, terminado o per\u00edodo de \u201cdesconex\u00e3o\u201d for\u00e7ada do processo produtivo e com os factores de produ\u00e7\u00e3o de volta ao seu emprego habitual, o processo de produ\u00e7\u00e3o pode reiniciar-se no ponto em que ficou parado, pois n\u00e3o se manifestaram erros sistem\u00e1ticos geradores de maus investimentos que exijam reconvers\u00e3o.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref1\">[12]<\/a> \u00c0 diferen\u00e7a do que aconteceu na Grande Recess\u00e3o de 2008, a estrutura produtiva n\u00e3o se viu irremediavelmente danificada, pelo que n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio um doloroso processo de reconvers\u00e3o e realoca\u00e7\u00e3o em massa de m\u00e3o-de-obra e de factores de produ\u00e7\u00e3o: simplesmente se requere que empres\u00e1rios, trabalhadores, e aut\u00f3nomos voltem ao trabalho, retomando as mesmas tarefas no ponto em que se interromperam e utilizando o equipamento de capital que permaneceu intacto desde ent\u00e3o (h\u00e1 uns poucos meses) e continua igualmente dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a este primeiro efeito, a muito curto prazo, deve-se aclarar que o mesmo tamb\u00e9m teria tido lugar, se bem que de uma forma muito mais suave, menos traum\u00e1tica e, portanto, sem dar lugar a uma oscila\u00e7\u00e3o t\u00e3o pronunciada do movimento pendular indicado no gr\u00e1fico (2), se os confinamentos se tivessem feito de uma forma volunt\u00e1ria e selectiva e tivessem sido decididos ao n\u00edvel \u201cmicro\u201d pelas fam\u00edlias, empresas, urbaniza\u00e7\u00f5es, bairros, etc., no contexto de uma sociedade livre na qual n\u00e3o existam governos monopolistas (o autogoverno pr\u00f3prio do anarco-capitalismo), ou estes n\u00e3o sejam centralistas nem imponham medidas generalizadas e coercivas de confinamento indiscriminado.<\/p>\n<p>2. Existem, no entanto, diversos sectores, fundamentalmente relacionados com a etapa de consumo final, cuja procura se vai ver drasticamente reduzida para l\u00e1 do final do confinamento, durante o per\u00edodo de tempo que seja necess\u00e1rio para superar a Pandemia e recuperar a normalidade plena de movimento pr\u00e9via ao surto, e que poder\u00e1 chegar a ser de muitos meses.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref2\">[13]<\/a> Basicamente, sectores como os do turismo, transportes, hotelaria e espect\u00e1culos, que s\u00e3o relativamente muito importantes em determinadas economias como a espanhola, onde o turismo representa quase 15% do PIB,<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref3\">[14]<\/a> requerem uma mudan\u00e7a mais profunda que o movimento meramente pendular descrito no ponto anterior, e que ter\u00e1 um impacto na estrutura produtiva durante um per\u00edodo de tempo mais prolongado (cerca de dois anos). Obviamente que, em igualdade de circunst\u00e2ncias, se as economias dom\u00e9sticas consomem menos em transporte a\u00e9reo, hot\u00e9is, restaurantes ou teatros, ou v\u00e3o consumir mais de outros bens e servi\u00e7os alternativos ou substitutos; ou dedicar uma maior parte do rendimento ao investimento; ou incrementar os seus saldos de tesouraria. Deixando de parte o poss\u00edvel aumento na procura por dinheiro, que discutiremos mais adiante ao falar de incerteza, \u00e9 obvio que a estrutura produtiva ter\u00e1 que se adaptar temporalmente \u00e0s novas circunst\u00e2ncias, tirando o melhor partido poss\u00edvel dos recursos que continuem activos nos sectores afectados (ao menos parcialmente) e, principalmente, dos que fiquem obrigat\u00f3ria e temporalmente ociosos, que ter\u00e3o que realocar-se \u00e0s linhas de produ\u00e7\u00e3o alternativas em que possam encontrar um emprego produtivo (tempor\u00e1rio ou definitivo).<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, determinados restaurantes permanecer\u00e3o abertos, contra ventos e mar\u00e9s, reconvertendo a sua oferta (por exemplo, fazendo comidas para entregar a domic\u00edlio), reduzido ao m\u00e1ximo os seus gastos (despedindo o pessoal ou reconvertendo-o, directa ou indirectamente, por exemplo, em estafetas de entregas, etc.) e ajustando as suas obriga\u00e7\u00f5es com fornecedores com a finalidade de reduzir ao m\u00ednimo os preju\u00edzos e o consumo do capital. Desta forma, evitam ter que atirar borda fora os anos investidos em ganhar reputa\u00e7\u00e3o e acumular um capital bastante valioso e dificilmente reconvert\u00edvel, esperando encontrar-se numa posi\u00e7\u00e3o mais vantajosa que os seus concorrentes quando as circunst\u00e2ncias mudarem, com importantes vantagens competitivas para enfrentar a previs\u00edvel e renovada recupera\u00e7\u00e3o do sector. Outros empres\u00e1rios v\u00e3o optar, pelo contr\u00e1rio, por retirar-se \u201cpara hibernar\u201d, fechando temporariamente os seus neg\u00f3cios, mas deixando as correspondentes infraestruturas e contratos de trabalho preparados para reabrir t\u00e3o rapidamente como lhes seja poss\u00edvel, assim que as circunst\u00e2ncias o permitam. Um terceiro grupo, geralmente constitu\u00eddo por aqueles projectos empresariais marginalmente menos rent\u00e1veis, inclusivamente nas circunst\u00e2ncias pr\u00e9-pand\u00e9micas, ver-se-\u00e3o obrigados a fechar definitivamente os seus neg\u00f3cios e a liquidar os respectivos projectos empresariais.<\/p>\n<p>Todos estes movimentos e decis\u00f5es empresariais podem e devem tomar-se com relativa celeridade e minorando os custos ao m\u00e1ximo, o que apenas ser\u00e1 poss\u00edvel numa economia dinamicamente eficiente, que promova o livre exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o empresarial e n\u00e3o a obstaculize com regula\u00e7\u00f5es prejudiciais, em particular no mercado laboral, e impostos desincentivadores. Isto porque, obviamente, n\u00e3o ser\u00e3o nem o governo nem os seus funcion\u00e1rios, mas sim um batalh\u00e3o de empres\u00e1rios que desejem seguir em frente, confiando, imperturb\u00e1veis, num futuro melhor e que mantenham com car\u00e1cter a confian\u00e7a de que mais tarde ou mais cedo este vai chegar, apesar de todas as adversidades, os que ser\u00e3o capazes de tomar as decis\u00f5es mais adequadas em cada momento, nas suas circunst\u00e2ncias particulares de tempo e lugar.<\/p>\n<p>Em termos do nosso tri\u00e2ngulo simplificado da estrutura produtiva, o mais que se pode representar (ver Gr\u00e1fico 3), sob o pressuposto de que n\u00e3o se produz uma altera\u00e7\u00e3o significativa na taxa social de prefer\u00eancia temporal, \u00e9 um vaiv\u00e9m horizontal da hipotenusa do tri\u00e2ngulo correspondente, primeiro em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, para registar o impacto agregado da menor procura nos sectores afectados (e seus respectivos fornecedores), e logo, de novo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 direita, \u00e0 medida que a procura seja substitu\u00edda por outra alternativa durante o per\u00edodo de meses que demore a voltar a plena normalidade, e na medida em que se recupere novamente grande parte da procura monet\u00e1ria perdida pelos sectores mencionados.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8354 size-full\" src=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-3-1.png\" alt=\"\" width=\"594\" height=\"259\" data-id=\"8354\" srcset=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-3-1.png 594w, https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-3-1-300x131.png 300w\" sizes=\"(max-width: 594px) 100vw, 594px\" \/><\/p>\n<p>Obviamente que o gr\u00e1fico (3) n\u00e3o permite captar as inumer\u00e1veis decis\u00f5es empresariais e movimentos reais de investimento que implica a r\u00e1pida e flex\u00edvel oscila\u00e7\u00e3o horizontal representada pelas setas de sentido duplo. Mas permite visualizar o grave risco que sup\u00f5e empreender pol\u00edticas tendentes a tornar a estrutura produtiva mais r\u00edgida, mantendo em funcionamento as empresas \u201czombies\u201d que deviam ser liquidadas o quanto antes, ao mesmo tempo que se dificulta, por via regulat\u00f3ria e impositiva, o efeito de retoma representado pela desloca\u00e7\u00e3o da hipotenusa do nosso tri\u00e2ngulo para a direita. \u00c9 que a interven\u00e7\u00e3o fiscal e regulat\u00f3ria pode fixar indefinidamente a estrutura produtiva na posi\u00e7\u00e3o BB, impedindo a sua retoma em direc\u00e7\u00e3o a AA.<\/p>\n<p>Escusado ser\u00e1 tamb\u00e9m dizer que todos estes processos de ajustamento r\u00e1pido e de recupera\u00e7\u00e3o requerem um mercado de trabalho muito \u00e1gil e flex\u00edvel em que se possa despedir e voltar a contratar com grande rapidez e m\u00ednimo custo. H\u00e1 que recordar que, ao contr\u00e1rio do que aconteceu durante a Grande Recess\u00e3o de 2008 (e em geral ap\u00f3s todas as crises financeiras que se seguem a processos prolongados de expans\u00e3o do cr\u00e9dito), no caso da Pandemia actual, n\u00e3o se parte de maus investimentos generalizados dos recursos produtivos (por exemplo, no sector da constru\u00e7\u00e3o, como sucedeu em 2008), que podiam justificar um volume de desemprego estrutural importante a longo prazo. Neste caso, \u00e9 poss\u00edvel realocar de forma sustent\u00e1vel, r\u00e1pida e permanente a m\u00e3o-de-obra e os factores de produ\u00e7\u00e3o, para o qual \u00e9 imprescind\u00edvel que os correspondentes mercados laborais e de factores de produ\u00e7\u00e3o sejam o mais livres e \u00e1geis poss\u00edvel.<\/p>\n<p>3. Faltaria analisar a possibilidade de que se produzam e consolidem como definitivas determinadas mudan\u00e7as de h\u00e1bitos de consumo da popula\u00e7\u00e3o que requeiram modifica\u00e7\u00f5es permanentes nas etapas da estrutura produtiva de investimento em bens de capital da sociedade. A este respeito, h\u00e1 que referir que, em qualquer economia de mercado n\u00e3o-intervencionada, a estrutura produtiva est\u00e1 sempre a adaptar-se, de forma gradual e n\u00e3o traum\u00e1tica, \u00e0s mudan\u00e7as nos gostos e necessidades dos consumidores. E ainda que seja poss\u00edvel reconhecer que a Pandemia pode provocar uma acelera\u00e7\u00e3o no descobrimento e adop\u00e7\u00e3o definitiva de determinados h\u00e1bitos de conduta por parte da maioria dos consumidores (por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o do uso do com\u00e9rcio electr\u00f3nico, a maior utiliza\u00e7\u00e3o de determinadas formas de pagamento, a generaliza\u00e7\u00e3o de videoconfer\u00eancias no mundo dos neg\u00f3cios e do ensino, etc.), na pr\u00e1tica talvez se esteja a exagerar o seu impacto, sobretudo se se compararem estas mudan\u00e7as supostamente radicais com as que ocorreram desde o in\u00edcio do s\u00e9c. XXI, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o mundial do com\u00e9rcio e das trocas, como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que a acompanhou e tornou poss\u00edvel. Ambas permitiram que centenas de milh\u00f5es de seres humanos tenham abandonado a pobreza e que se tenham incorporado os fluxos de produ\u00e7\u00e3o de milhares de milh\u00f5es de pessoas (principalmente da \u00c1sia e de \u00c1frica), que at\u00e9 agora permaneciam \u00e0 margem dos circuitos produtivos e comerciais pr\u00f3prios de uma economia de mercado. Desencadearam-se assim as for\u00e7as produtivas do capitalismo de uma forma que a humanidade n\u00e3o tinha conhecido antes; e, apesar do peso da interven\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o estatal que continuamente dificulta e lastra as asas do progresso, a humanidade conseguiu o grande \u00eaxito social e econ\u00f3mico de alcan\u00e7ar e manter um volume de popula\u00e7\u00e3o de 8 mil milh\u00f5es de seres humanos, num n\u00edvel de vida que at\u00e9 h\u00e1 n\u00e3o muitas d\u00e9cadas era imposs\u00edvel sequer conceber.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref1\">[15]<\/a> Com esta perspectiva, o impacto a longo prazo da actual Pandemia deve ser rigorosamente minimizado num contexto de mudan\u00e7as muito maiores e mais profundas, \u00e0s quais continuamente se adaptam, sem grandes dificuldades, as economias de mercado, devendo a nossa an\u00e1lise, portanto, voltar ao estudo dos efeitos a curto e a m\u00e9dio prazo da Pandemia actual, os quais, pela sua maior proximidade, se podem considerar hoje mais relevantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Incerteza e procura por dinheiro<\/strong><\/p>\n<p>Vamos terminar a primeira parte do nosso trabalho referindo-nos ao impacto da incerteza gerada pela Pandemia \u2013 principalmente porque, como veremos na \u00faltima parte deste trabalho, a mesma serviu de justifica\u00e7\u00e3o para promover, ainda mais, pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o fiscal e, sobretudo, monet\u00e1ria ultra-permissivas e sem precedentes na hist\u00f3ria, que sup\u00f5em uma grande amea\u00e7a e que, muito possivelmente, n\u00e3o deixar\u00e3o de ter graves consequ\u00eancias quando se supere a actual Pandemia.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, o impacto de uma pandemia na incerteza e, consequentemente, na oferta de dinheiro pode oscilar entre dois extremos antag\u00f3nicos. Por um lado, encontra-se o caso de uma pandemia t\u00e3o grave que, como j\u00e1 vimos que ocorreu com a peste bub\u00f3nica na Floren\u00e7a do s\u00e9c. XIV e que t\u00e3o bem descreve Boccaccio no <em>Decamer\u00e3o<\/em>, mais do que incerteza, produziu numa parte muito importante da popula\u00e7\u00e3o a certeza de que tinha os seus dias contados e que, portanto, a sua esperan\u00e7a de vida se tinha reduzido drasticamente. Nessas circunst\u00e2ncias \u00e9 compreens\u00edvel que a procura por dinheiro colapse e que este perca grande parte do seu poder aquisitivo, num contexto em que ningu\u00e9m se quer nem desprender de bens nem prestar servi\u00e7os cuja produ\u00e7\u00e3o em grande parte se desmoronou, mas que a maioria deseja consumir o quanto antes.<\/p>\n<p>Para os efeitos que nos importam, maior interesse anal\u00edtico tem o caso das pandemias muito menos graves, como a actual, nas que, ainda que n\u00e3o esteja em perigo a sobreviv\u00eancia da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, se produz uma escalada da incerteza, principalmente durante os primeiros meses, a respeito da extens\u00e3o, evolu\u00e7\u00e3o e rapidez dos cont\u00e1gios e dos seus efeitos econ\u00f3micos e sociais. Dado que os saldos de tesouraria s\u00e3o o meio por excel\u00eancia para fazer frente \u00e0 incerteza inerradic\u00e1vel<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref2\">[16]<\/a> do futuro, pois permitem que os agentes econ\u00f3micos e as economias dom\u00e9sticas mantenham todas as op\u00e7\u00f5es em aberto, podendo assim adaptar-se, com grande rapidez e facilidade, a qualquer circunst\u00e2ncia futura uma vez que esta se concretize, pode perceber-se que o normal aumento da incerteza derivado da Pandemia actual tenha sido acompanhado de um concomitante incremento da procura por dinheiro e, portanto, em igualdade de circunst\u00e2ncias, do seu poder aquisitivo. Este efeito pode ser visualizado (Gr\u00e1fico 4) com os nossos esquemas triangulares de estruturas produtivas em termos de procura monet\u00e1ria, como um movimento uniforme para a esquerda da correspondente hipotenusa, caso a prefer\u00eancia temporal n\u00e3o se modifique (Gr\u00e1fico \u201ca\u201d); com movimento para a esquerda com maior investimento relativo (se os saldos de tesouraria se acumulam, diminuindo o consumo) (Gr\u00e1fico \u201cb\u201d); ou com maior consumo relativo (se o novo dinheiro se acumula por meio da venda de bens de capital e activos financeiros, mas n\u00e3o reduzindo o consumo) (Gr\u00e1fico \u201cc\u201d):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8355 size-full\" src=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-4-1.png\" alt=\"\" width=\"606\" height=\"286\" data-id=\"8355\" srcset=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-4-1.png 606w, https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Grafico-4-1-300x142.png 300w\" sizes=\"(max-width: 606px) 100vw, 606px\" \/><\/p>\n<p>Ainda que qualquer destes resultados seja teoricamente poss\u00edvel, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que, nas actuais circunst\u00e2ncias, se tenha produzido uma combina\u00e7\u00e3o dos mesmos, especialmente das situa\u00e7\u00f5es descritas em (a) e (b). Podemos pensar que estes se sobrepuseram aos gr\u00e1ficos que j\u00e1 analis\u00e1mos e difundimos nos par\u00e1grafos anteriores, nos quais, para facilitar a sua compreens\u00e3o e an\u00e1lise separadas, n\u00e3o tivemos em conta os efeitos derivados do poss\u00edvel aumento da procura por dinheiro que agora incorpor\u00e1mos na nossa an\u00e1lise. Existem, no entanto, tr\u00eas considera\u00e7\u00f5es de import\u00e2ncia a fazer sobre o aumento da incerteza e da procura por dinheiro em resultado da Pandemia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o aumento da incerteza (e o concomitante incremento da procura monet\u00e1ria) \u00e9 tempor\u00e1rio e de dura\u00e7\u00e3o relativamente reduzida, pois tender\u00e1 a reverter-se assim que surjam as expectativas de melhora, quando se come\u00e7ar a vislumbrar \u201co fim do t\u00fanel\u201d. Portanto, e sem necessidade de esperar que se complete o per\u00edodo de supera\u00e7\u00e3o da Pandemia (\u00e0 volta de dois anos), vai-se produzir paulatinamente o retorno aos n\u00edveis \u201cnormais\u201d de incerteza e, com estes, os movimentos descritos nos gr\u00e1ficos \u201ca\u201d, \u201cb\u201d e \u201cc\u201d dar\u00e3o a volta em sentido contr\u00e1rio, fazendo com que a estrutura produtiva em termos monet\u00e1rios volte \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, na medida em que os novos saldos monet\u00e1rios se acumulem por via da diminui\u00e7\u00e3o da procura de bens de consumo (gr\u00e1ficos \u201ca\u201d e \u201cb\u201d) \u2013 que, em qualquer caso, \u00e9 seguro que aconte\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos sectores mais afectados pelas restri\u00e7\u00f5es de mobilidade (turismo, hotelaria, etc.) \u2013 esta menor procura monet\u00e1ria de bens de consumo tender\u00e1 a deixar um volume significativo dos mesmos sem vender, o que permitir\u00e1 fazer frente, tanto \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da sua produ\u00e7\u00e3o, derivada dos inevit\u00e1veis engarrafamentos na produ\u00e7\u00e3o (e do confinamento em maior ou menor medida dos seus produtores), como \u00e0 procura derivada de todos aqueles que, total ou parcialmente, deixaram de trabalhar durante os primeiros meses de impacto da pandemia. Portanto, o aumento da procura por dinheiro cumpre uma importante fun\u00e7\u00e3o de acomodamento perante o choque na oferta provocado pelo confinamento obrigat\u00f3rio na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, evitando-se assim que os pre\u00e7os relativos disparem, com grande preju\u00edzo para amplas camadas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em terceiro, e \u00faltimo, lugar, deve notar-se que a incerteza se pode incrementar ainda mais \u2013 e, inclusivamente, estender-se para l\u00e1 do estritamente necess\u00e1rio (e do que a Pandemia, por si s\u00f3, teria gerado) \u2013 como resultado do intervencionismo monet\u00e1rio, fiscal e impositivo por parte de governos e bancos centrais. Sem d\u00favida alguma, estes podem gerar um clima adicional de desconfian\u00e7a empresarial que obstaculize a r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o do mercado e corte as asas do processo empresarial na fase de regresso \u00e0 normalidade, como veremos mais ao pormenor na terceira parte. Podia assim reproduzir-se o processo perverso de <em>feedback<\/em> ou retroalimenta\u00e7\u00e3o que expus ao pormenor no meu artigo sobre a \u201cjaponiza\u00e7\u00e3o\u201d da Uni\u00e3o Europeia,<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref1\">[17]<\/a> no qual a injec\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de oferta monet\u00e1ria e redu\u00e7\u00e3o a zero das taxas de juro por parte dos bancos centrais n\u00e3o produz efeitos apreci\u00e1veis sobre a economia, frustrando-se a si mesma ao ficar esterilizada pelo incremento simult\u00e2neo da procura monet\u00e1ria que deriva do custo de oportunidade nulo de manter uma situa\u00e7\u00e3o de liquidez e, principalmente, do incremento adicional da incerteza que geram as pr\u00f3prias pol\u00edticas de maior regula\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, bloqueio das reformas estruturais em curso, subida de impostos, intervencionismo e descontrolo fiscal e monet\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn1\">[4]<\/a> O autor destas linhas vai sempre recordar o relato do seu amigo Arthur Seldon sobre como perdeu os seus pais. Seldon, depois de se licenciar pela London School of Economics, foi, em conjunto com Lord Harris of High Cross, o primeiro director-geral do Institute of Economic Affairs (IEA) de Londres, distinguido membro da Mont P\u00e8lerin Society, grande pol\u00edmato e defensor da economia de mercado. Os seus progenitores faleceram distados de um curto espa\u00e7o de tempo, ambos com trinta anos de idade, como consequ\u00eancia da Gripe Espanhola, quando ele era muito pequeno. Arthur Seldon ficou assim \u00f3rf\u00e3o com dois anos de idade e foi adoptado por outros pais. Com o passar dos anos, Seldon soube superar esta experi\u00eancia traum\u00e1tica que lhe deixou, n\u00e3o obstante, e como sequela permanente, uma gaguez que n\u00e3o o abandonaria o resto da sua vida, apesar da qual chegou a converter-se num dos economistas mais brilhantes do Reino Unido. Foi em grande medida inspirador da revolu\u00e7\u00e3o conservadora de Margaret Thatcher, iniciada em finais dos anos setenta do s\u00e9culo passado. Veja-se: Arthur Seldon, <em>Capitalismo<\/em>, Uni\u00f3n Editorial, Madrid, 1994, especialmente as p\u00e1gs. 58 e 77. [Uma vers\u00e3o condensada do livro citado de Seldon, editada pelo IEA, pode ser encontrada em: https:\/\/maisliberdade.pt\/biblioteca\/capitalism-a-condensed-version\/ (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn2\">[5]<\/a> Sobre este tema, por exemplo, Murray N. Rothbard, <em>America\u2019s Great Depression<\/em>, 5.\u00aa ed., Mises Institute, Auburn AL, 2000. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/maisliberdade.pt\/biblioteca\/americas-great-depression\/\">https:\/\/maisliberdade.pt\/biblioteca\/americas-great-depression\/<\/a> [O autor citava originalmente a tradu\u00e7\u00e3o espanhola (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn3\">[6]<\/a> [Sobre o conceito de \u201cdestrutivismo\u201d, ver Ludwig von Mises, <em>Socialism: An Economic and Sociological Analysis<\/em>, Mises Institute, Auburn AL, 2009, p\u00e1gs. 457-510. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/maisliberdade.pt\/%20biblioteca\/socialism-an-economic-and-sociological-analysis\/\">https:\/\/maisliberdade.pt\/ biblioteca\/socialism-an-economic-and-sociological-analysis\/<\/a> (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn4\">[7]<\/a> Ver, por exemplo, o coment\u00e1rio de Carlo Maria Cipolla sobre os efeitos da Peste Negra do s\u00e9c. XIV, no seu livro <em>El gobierno de la moneda: ensayos de historia monetaria<\/em>, Editorial Cr\u00edtica, Barcelona, 1994, p\u00e1gs. 147-152, e a minha cr\u00edtica a Cipolla em <em>Dinero, cr\u00e9dito banc\u00e1rio y ciclos econ\u00f3micos<\/em>, 7.\u00aa ed., Uni\u00f3n Editorial, Madrid 2020, p\u00e1gs. 60-61 (em particular a refer\u00eancia 56). No entanto, a paran\u00f3ia destrutivista alcan\u00e7a o seu z\u00e9nite com Paul Krugman, que chegou a afirmar no seu artigo \u201c<em>Oh! What a lovely war\u201d<\/em>, publicado em 2011: \u201cA Segunda Guerra Mundial \u00e9 a grande experi\u00eancia natural sobre os efeitos que acarreta um grande incremento da despesa p\u00fablica e, como tal, sempre serviu como um importante exemplo positivo (!) para todos aqueles que defendemos o activismo econ\u00f3mico para enfrentar uma economia deprimida\u201d. Citado por J.R. Rallo no pr\u00f3logo de <em>La Gran Depresi\u00f3n<\/em>, ob. cit., p\u00e1gs. XXVI-XXVII. [Como vimos acima, o autor cita a tradu\u00e7\u00e3o espanhola da obra de Rothbard. O pr\u00f3logo a que se refere nesta refer\u00eancia pode ser consultado em: <a href=\"https:\/\/juanramonrallo.com\/prologo-de-la-gran-depresion\/\">https:\/\/juanramonrallo.com\/prologo-de-la-gran-depresion\/<\/a> (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn5\">[8]<\/a> \u201cTodos, como se esperassem ver chegar a morte no mesmo dia, se esfor\u00e7avam com todo o seu engenho n\u00e3o em contribuir para os futuros frutos dos animais e da terra e dos seus trabalhos no passado, mas em consumir os que tinham mais \u00e0 m\u00e3o.\u201d G. Boccaccio, <em>Decamer\u00e3o<\/em>, Primeira Jornada, final do segundo par\u00e1grafo, e os meus coment\u00e1rios \u00e0s refer\u00eancias de John Hicks sobre o tema (<em>Capital and Time: A Neo-Austrian Theory<\/em>, Clarendon, Oxford, 1973, p\u00e1gs. 12-13), inclu\u00eddos em Jes\u00fas Huerta de Soto, <em>Dinero, cr\u00e9dito banc\u00e1rio y ciclos econ\u00f3micos<\/em>, 7.\u00aa ed., Uni\u00f3n Editorial, Madrid 2020, p\u00e1gs. 61 e 276.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn6\">[9]<\/a> Ibid. p\u00e1gs. 275-276.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn7\">[10]<\/a> [Os tri\u00e2ngulos Hayekianos s\u00e3o uns gr\u00e1ficos com forma triangular, semelhantes aos que o professor Huerta de Soto apresenta neste trabalho, que F.A. Hayek usou nas palestras que deu, a princ\u00edpio da d\u00e9cada de 30, na London School of Economics, em Londres, e que apareceram publicadas, posteriormente, como <em>Prices and Production<\/em>, em 1931. A ideia de Hayek era explicar que o equil\u00edbrio econ\u00f3mico tinha uma vertente inter-temporal, devido ao facto de a produ\u00e7\u00e3o dos bens necessitar de estruturas de produ\u00e7\u00e3o e de tempo para chegar ao consumidor final. Os tri\u00e2ngulos eram uma forma de tentar introduzir uma teoria do capital nos modelos de equil\u00edbrio existentes. (N.T)]\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn1\">[11]<\/a> [ERE \u2013 Expediente de Regulaci\u00f3n de Empleo e ERTE \u2013 Expediente de Regulaci\u00f3n Temporal de Empleo. S\u00e3o os dois mecanismos pelos quais as empresas podem proceder a despedimentos colectivos em Espanha. A diferen\u00e7a entre os dois, como se depreende dos nomes, \u00e9 que no segundo existe a expectativa de os trabalhadores serem reincorporados na empresa quando o per\u00edodo de crise \u00e9 superado, j\u00e1 que, previsivelmente, tem um car\u00e1cter tempor\u00e1rio. (N.T)]\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn1\">[12]<\/a> \u00c0 margem, obviamente, dos erros j\u00e1 existentes antes da Pandemia e que ficaram pendentes de liquida\u00e7\u00e3o ou reconvers\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn2\">[13]<\/a> Na chamada \u201cGripe Espanhola\u201d, este per\u00edodo foi de um pouco mais de dois anos. Na Pandemia de COVID-19, apesar das vacinas, julgamos que esta segunda fase ter\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o similar; quando muito, alguns meses mais curta.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn3\">[14]<\/a> [Em Portugal, o peso da procura tur\u00edstica antes da Pandemia revela uma percentagem do PIB semelhante \u00e0 espanhola \u2013 14,6% em 2018 e 15,4% em 2019. Fonte INE (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn1\">[15]<\/a> Veja-se, entre muitos outros estudos, o de Hans Rosling, <em>Factfulness<\/em>, Sceptre, Londres, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn2\">[16]<\/a> [A express\u00e3o \u201cincertidumbre inerradicable\u201d \u00e9 um conceito central, desenvolvido por Huerta de Soto, na caracteriza\u00e7\u00e3o do universo que os seres humanos enfrentam, ao exercerem a fun\u00e7\u00e3o empresarial, nas suas decis\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es concretas. Os comportamentos, pr\u00f3prios e alheios, que d\u00e3o azo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es (a l\u00edngua, o dinheiro, a propriedade, etc.) servem para reduzir a incerteza que rodeia essa actua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a podem nunca erradicar na sua totalidade. Utiliz\u00e1mos a palavra \u201cinerradic\u00e1vel\u201d, que n\u00e3o existe no dicion\u00e1rio da l\u00edngua portuguesa, porque o original \u201cinerradicable\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o existe no espanhol. Conhecendo o cuidado que o profesor Huerta de Soto coloca nas palavras, o uso de \u201cinerradicable\u201d n\u00e3o \u00e9 um lapso. Pelo contr\u00e1rio, procura vincar profundamente a ideia, sempre presente na obra do autor, de que o futuro n\u00e3o \u00e9 um \u201cporvir\u201d mas um \u201cporfazer\u201d, que depende, essencialmente, da criatividade humana. Veja-se Jes\u00fas Huerta de Soto, <em>Socialismo, c\u00e1lculo econ\u00f3mico y funci\u00f3n empresarial<\/em>, Uni\u00f3n Editorial, Madrid, 4.\u00aa ed. 2010, p\u00e1gs. 46-47. (N.T.)]\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn1\">[17]<\/a> Jes\u00fas Huerta de Soto, \u201cLa Japonisaci\u00f3n de la Uni\u00f3n Europea\u201d, <em>Procesos de Mercado<\/em>, Vol. XVI, n.\u00ba 2, Outono 2019, p\u00e1gs. 317-342. [Pode ser consultado em: <a href=\"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/la-japonizacion-de-la-union-europea\/\">https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/la-japonizacion-de-la-union-europea\/<\/a> (N.T.)]\n","protected":false},"featured_media":0,"parent":8330,"menu_order":0,"template":"","article-language":[],"class_list":["post-8347","articulo","type-articulo","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/articulo\/8347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/articulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/articulo"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/articulo\/8330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"article-language","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jesushuertadesoto.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/article-language?post=8347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}